As paixões não são suas inimigas. São movimentos reais da sua alma diante de tudo o que você percebe como bom ou ruim. São 11 ao todo, e cada emoção que você sente é uma combinação delas. O problema nunca é sentir. O problema é não saber o que fazer com o que sente. Neste artigo eu explico o que são as paixões, como funcionam e por que governá-las é diferente de reprimi-las.
Você já ouviu alguém dizer “controle suas emoções”?
Eu já ouvi centenas de vezes. E durante muito tempo achei que significava: não sinta. Sufoque. Engole. Faz de conta que não está com raiva, que não está com medo, que não está com vontade de chorar.
Essa ideia é péssima. E não funciona.
Funciona por um tempo, como uma panela de pressão sem válvula. Parece que está tudo bem. Até que explode. E quando explode, o estrago é muito maior do que teria sido se você tivesse lidado com aquilo no começo.
A tradição filosófica que eu estudo diz algo muito diferente. As paixões não são para ser eliminadas. São para ser governadas. Existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Reprimir é tapar a panela. Governar é regular o fogo.
E para governar, primeiro você precisa entender o que está acontecendo dentro de você. É isso que este artigo faz.
Paixão não é o que você pensa
Quando ouvimos “paixão”, pensamos em romance. “Ele é apaixonado por ela.” Ou em intensidade: “Ele tem paixão pelo que faz.”
No sentido que eu uso aqui, paixão significa outra coisa. É mais fundamental.
Paixão é todo movimento da sua alma sensível diante de algo que você percebe como bom ou ruim.
Quando você sente raiva, está sentindo uma paixão. Quando sente medo, também. Quando sente alegria, desejo, tristeza, esperança, coragem. Tudo isso são paixões.
A palavra vem do latim passio, que significa “ser afetado por algo”. Você não decide sentir raiva. Ela chega. Você é afetado por uma situação e sua alma reage.
Por isso é tão injusto quando alguém diz “você não deveria sentir isso”. Você não escolheu sentir. A paixão veio. O que você pode escolher é o que faz com ela.
As 11 paixões fundamentais
Aristóteles e Tomás de Aquino identificaram 11 paixões básicas. Todas as emoções que você sente na vida são combinações dessas 11.
Elas se dividem em dois grupos, dependendo do tipo de situação que você enfrenta.
Grupo 1: Diante do que é fácil
São as paixões que surgem quando o bem ou o mal que você percebe é simples, direto, sem grande obstáculo. Seis paixões:
Diante de algo bom:
-
Amor: você se inclina para aquilo. Sente atração, afinidade, agrado. Exemplo: você gosta de estar com seus filhos. Gosta de uma comida. Gosta de um lugar.
-
Desejo: você quer aquilo que ainda não tem. É o amor em movimento. Exemplo: vontade de comer quando sente fome. Vontade de ver alguém que está longe.
-
Prazer: você desfruta do bem que já está presente. O desejo descansou. Exemplo: a alegria de chegar em casa depois de um dia difícil. O prazer de uma refeição boa.
Diante de algo ruim:
-
Ódio: você se repele daquilo. Rejeição, aversão, repugnância. Exemplo: aversão a mentira, a injustiça, a sujeira.
-
Aversão: você quer se afastar de algo ruim que pode vir. Exemplo: evitar uma pessoa que te faz mal. Desviar de uma rua perigosa.
-
Tristeza: você sofre por um mal que já está presente. Exemplo: a dor pela perda de alguém querido. A tristeza de um fracasso.
Grupo 2: Diante do que é difícil
São as paixões que surgem quando o bem é custoso de alcançar ou o mal é forte demais para simplesmente evitar. Cinco paixões:
Diante de um bem difícil:
-
Esperança: você acredita que é possível, mesmo sendo difícil. Exemplo: estudar meses para um concurso acreditando que vai passar.
-
Desespero: você conclui que é impossível. Desiste. Exemplo: abandonar um projeto depois de muitas tentativas frustradas.
Diante de um mal difícil:
-
Coragem: você enfrenta. Exemplo: enfrentar uma conversa difícil com o chefe. Defender sua família numa situação de risco.
-
Medo: você recua. Exemplo: medo de perder o emprego. Medo de uma doença grave.
-
Ira: você reage contra o mal que está acontecendo agora. Exemplo: indignação quando alguém mente na sua cara. Raiva diante de uma injustiça.
O mapa completo
PaixãoGrupoDiante deO que fazAmorFácilBemAtraiDesejoFácilBem ausentePuxaPrazerFácilBem presenteFaz desfrutarÓdioFácilMalRepeleAversãoFácilMal que pode virAfastaTristezaFácilMal presenteFaz sofrerEsperançaDifícilBem difícil possívelAnimaDesesperoDifícilBem impossívelParalisaCoragemDifícilMal superávelImpulsionaMedoDifícilMal invencívelFreiaIraDifícilMal presenteFaz reagir
Essas 11 são as peças do tabuleiro. Tudo o que você sente é uma combinação delas.
Suas emoções complexas são combinações
Ciúme, inveja, ansiedade, saudade, vergonha, gratidão. Nenhuma dessas é uma paixão básica. Todas são combinações.
Alguns exemplos:
EmoçãoCombinação de paixõesInvejaTristeza + ódio (pelo bem do outro)CiúmeAmor + medo + tristeza (medo de perder quem ama)AnsiedadeMedo + tristeza (diante de um mal futuro incerto)SaudadeAmor + tristeza + desejo (pela ausência de quem ama)VergonhaTristeza + medo (pelo mal próprio exposto a outros)GratidãoAmor + prazer (pelo bem recebido de alguém)ArrependimentoTristeza + ódio (do próprio ato)CompaixãoTristeza + amor (pelo mal de outra pessoa)
Quando você entende essa lógica, as emoções param de ser um mistério. Você consegue olhar para o que sente e identificar: “isso é medo de perder algo que amo”. Ou: “isso é tristeza pelo bem que eu não tenho e o outro tem”.
Isso não elimina a emoção. Mas muda completamente sua relação com ela. Porque o que você nomeia, você pode governar. O que fica sem nome, governa você.
Paixões não são boas nem ruins. O governo é que define.
Essa é a tese central deste artigo. E ela vai contra o que a maioria das pessoas pensa.
A raiva não é ruim. O medo não é ruim. O desejo não é ruim. O prazer não é ruim.
Todas as 11 paixões são boas em si mesmas. São movimentos naturais da alma. Você não é defeituoso por sentir raiva. Não é fraco por sentir medo. Não é mau por sentir desejo.
O que torna uma paixão boa ou má é o governo.
Raiva diante de uma injustiça real, na medida certa, expressa de forma firme mas controlada: isso é virtude. Chamava-se, na tradição clássica, “ira justa” ou, mais amplamente, a virtude da mansidão (que não é passividade, é governo da ira).
Raiva diante de qualquer contrariedade mínima, desproporcional, explosiva: isso é vício. É a ira sem governo.
O mesmo vale para cada paixão:
PaixãoSem governo (vício)Com governo (virtude)DesejoCompulsão, gula, luxúriaDesejo ordenado, saber esperarMedoParalisia, covardiaPrudência, cautela sábiaPrazerHedonismo, vícioGratidão, alegria sóbriaIraAgressividade, violênciaFirmeza, indignação justaTristezaDepressão, autocomiseraçãoLuto saudável, compunçãoEsperançaPresunção, expectativa irrealPerseverança, confiança realistaCoragemTemeridade, imprudênciaBravura, enfrentar o necessário
Perceba: o governo não elimina a paixão. Ele a dirige. É a diferença entre um cavalo solto e um cavalo com rédea. O cavalo é o mesmo. A força é a mesma. O que muda é quem comanda.
“Controle emocional” vs. governo das paixões
A psicologia moderna fala muito em “inteligência emocional” e “controle emocional”. Não tenho nada contra esses conceitos. Mas eles costumam ficar na superfície.
“Controle emocional” geralmente significa: técnicas para não explodir. Conta até dez. Respire fundo. Saia da sala.
Tudo isso pode ajudar no momento. Mas não muda a raiz do problema.
O governo das paixões, como a tradição clássica entende, vai muito mais fundo:
Controle emocional (moderno)Governo das paixões (clássico)Técnica pontualHábito permanenteEvita a explosãoTransforma a reaçãoFoca no comportamento externoFoca na disposição internaResultado: você não gritaResultado: você não sente a necessidade de gritarBaseado em estratégiaBaseado em virtude
A diferença é enorme. A pessoa que só tem “controle emocional” precisa de esforço toda vez. A pessoa que tem a virtude da mansidão reage naturalmente com proporção. Não precisa contar até dez porque o governo já está operando por dentro.
É como a diferença entre segurar um cachorro bravo pela coleira e ter um cachorro bem treinado. Os dois “não mordem”. Mas por razões muito diferentes.
O erro do estoicismo e o erro do romantismo
Dois erros opostos sobre as paixões dominam a cultura atual.
O estoicismo (que voltou a ficar popular com a moda do “estoicismo moderno”) diz: as paixões são o problema. Elimine-as. Seja imperturbável. Não sinta.
O romantismo (que domina o senso comum desde o século XIX) diz: as paixões são a verdade. Siga o coração. Sinta tudo. O que você sente é quem você realmente é.
Os dois estão errados.
O estoicismo erra porque tenta matar os cavalos. Uma pessoa sem paixões não é virtuosa. É morta por dentro. A coragem precisa da paixão da ira para agir. A compaixão precisa da paixão da tristeza para sentir o sofrimento do outro. Sem paixão não há força.
O romantismo erra porque solta os cavalos. Uma pessoa que segue todas as suas emoções sem governo vive no caos. “Siga seu coração” é o pior conselho do mundo se o coração está desordenado. E o coração, sem governo, quase sempre está.
A posição correta está no meio. As paixões são boas. Devem ser sentidas. Mas devem ser governadas pela razão e pela vontade. Nem suprimidas, nem obedecidas cegamente.
O que eu quero que você leve deste artigo
Você tem 11 paixões fundamentais operando dentro de si o tempo todo. Elas não são suas inimigas. São forças naturais que te movem em direção ao bem e te afastam do mal.
O problema nunca é sentir. O problema é não governar o que sente.
Governar não é reprimir. É dirigir. É saber quando a raiva é justa e quando é desproporcional. Quando o medo é prudência e quando é covardia. Quando o desejo é legítimo e quando é compulsão.
Isso se aprende com a prática. Com o hábito repetido de perguntar: “o que estou sentindo agora é proporcionado à situação, ou está fora do eixo?” E agir segundo a resposta, mesmo quando custa.
Esse hábito tem um nome antigo: virtude. E começa com entender o mapa.
FAQ
Paixões e emoções são a mesma coisa?
Quase. No uso popular, “emoção” e “paixão” significam praticamente a mesma coisa. Na tradição filosófica, “paixão” é mais preciso: é um movimento do apetite sensível diante de um bem ou mal percebido pelos sentidos. “Emoção” no sentido moderno é mais amplo e mais vago. Neste artigo, uso “paixão” no sentido clássico e “emoção” como sinônimo acessível.
Se as paixões são boas, por que causam tanto problema?
Porque elas operam no aqui e agora. A raiva quer explodir agora. O desejo quer satisfação agora. O medo quer fugir agora. A razão, por outro lado, enxerga mais longe: consequências, valores, compromissos. Quando a paixão age sem esperar o juízo da razão, causa estrago. Não porque seja má, mas porque é parcial. Ela vê o imediato. A razão vê o todo.
Reprimir emoções causa problemas de saúde?
Pode causar, sim. Reprimir não é o mesmo que governar. Reprimir é fingir que a emoção não existe, engolir sem processar. Isso pode gerar estresse crônico, somatização e até explosões tardias muito piores. Governar é diferente: é reconhecer a emoção, avaliá-la com a razão e responder de forma proporcionada. Isso é saudável.
Ansiedade é uma paixão?
Ansiedade é uma combinação de paixões: medo + tristeza diante de um mal futuro incerto. Quando a ansiedade é proporcionada a uma situação real, é saudável (te faz se preparar). Quando é desproporcional ou constante sem causa real, pode ser um transtorno que precisa de acompanhamento profissional. Este artigo não substitui diagnóstico nem tratamento.
Como começo a governar minhas paixões na prática?
Três passos. Primeiro: nomeie o que está sentindo. Use a tabela das 11 paixões como referência. Segundo: pergunte se a reação é proporcionada à situação. Terceiro: aja segundo a razão, não segundo o impulso. No começo isso é difícil e lento. Com a prática, vira hábito. E o hábito de agir com proporção é exatamente o que a tradição clássica chama de virtude.
Para ir mais fundo
-
Como o ser humano funciona: intelecto, vontade, paixões e temperamento — o mapa completo das três faculdades
-
Como controlar a raiva: além de contar até dez — governo da ira na prática
-
As paixões da alma: o que a psicologia moderna esqueceu — aprofundamento sobre as 11 paixões e seus compostos