O homem é bom ou mau por natureza?

André Ramos
Filósofo

Conteúdo do artigo

Rousseau disse que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. Hobbes disse que o homem nasce mau e a sociedade o controla. A tradição clássica disse algo mais preciso: o homem é naturalmente orientado ao bem, mas essa orientação encontra resistência. Ele tem razão para conhecer a verdade, vontade para escolher o bem e paixões que podem colaborar ou atrapalhar. O que ele faz com tudo isso depende do governo, da educação e da vida em comunidade.


Essa pergunta aparece de diversas formas no dia a dia.

“As pessoas são egoístas por natureza.” “No fundo, todo mundo é bom.” “O ser humano é destrutivo, olha o que faz com o planeta.” “As crianças nascem inocentes, é o mundo que estraga.”

Cada uma dessas frases assume uma posição sobre a natureza humana. E a posição que você assume muda tudo: como educa seus filhos, como trata as pessoas, como organiza a sociedade, como entende a si mesmo.


Rousseau: o homem nasce bom

Jean-Jacques Rousseau (século XVIII) defendeu que o ser humano nasce naturalmente bom. Generoso, compassivo, pacífico. O que o corrompe é a civilização: propriedade, desigualdade, instituições.

A influência de Rousseau é gigantesca. Grande parte da educação moderna, da psicologia humanista e do pensamento progressista parte dessa premissa: se o ambiente for bom, a pessoa será boa.

Onde acerta

A influência do ambiente é real. Uma criança criada com amor, segurança e bons exemplos tem mais chances de desenvolver virtude do que uma criada com violência e abandono. O ambiente importa.

Onde erra

Se o homem fosse naturalmente bom, de onde veio o primeiro mal? Se a sociedade corrompe, quem corrompeu a sociedade? Outros homens. Que, pela tese, deveriam ser bons. A explicação é circular.

Além disso, qualquer pai sabe que a criança não precisa que ninguém a ensine a mentir, a tomar o brinquedo do outro ou a fazer birra. Essas inclinações aparecem sozinhas. O que precisa ser ensinado é o contrário: verdade, partilha, governo de si.


Hobbes: o homem nasce mau

Thomas Hobbes (século XVII) defendeu o oposto: o homem é naturalmente egoísta, violento e predatório. Sem leis e sem Estado, a vida seria “solitária, pobre, sórdida, brutal e breve”. A civilização não corrompe. Domestica.

Onde acerta

O homem é capaz de maldade real. Não é ingênuo negar isso. A história é testemunha. E a inclinação para o egoísmo é observável em toda pessoa, desde a infância.

Onde erra

Se o homem fosse naturalmente mau, de onde viria a bondade? De onde viria a compaixão, o sacrifício, o amor genuíno? Se tudo é egoísmo disfarçado, como explicar a mãe que morre pelo filho? O bombeiro que entra no prédio em chamas? O amigo que larga tudo para te ajudar?

Hobbes não consegue explicar o bem. Assim como Rousseau não consegue explicar o mal. Cada um vê metade da realidade.


O que Aristóteles e Tomás de Aquino realmente disseram

A tradição clássica não diz que o homem é “neutro” entre bem e mal, como se fosse uma tábula rasa moral esperando ser preenchida. Diz algo mais preciso:

O homem é naturalmente orientado ao bem. Mas essa orientação encontra resistência.

Vou desdobrar isso.

A natureza humana é ordenada ao bem

Aristóteles define o homem como animal racional. Isso não é um rótulo. É uma afirmação sobre a natureza: o que é mais próprio do homem é a razão. E a razão, por natureza, busca a verdade. Assim como o olho busca a luz e o ouvido busca o som, o intelecto busca o que é verdadeiro.

Do mesmo modo, a vontade busca naturalmente o bem. Ninguém quer o mal enquanto mal. Mesmo quem faz o mal o faz porque percebe algum bem naquilo (prazer, poder, alívio). A orientação para o bem é natural. O erro está na confusão entre o bem verdadeiro e o bem aparente.

Tomás de Aquino aprofunda: existe no homem o que ele chama de synderesis, o hábito natural dos primeiros princípios práticos. Todo ser humano sabe, naturalmente, que “o bem deve ser feito e o mal evitado”. Não precisa que ninguém ensine isso. É tão natural quanto saber que o todo é maior que a parte. É o ponto de partida da vida moral.

Portanto: o homem não é neutro. É naturalmente inclinado ao bem. A razão busca a verdade. A vontade busca o bem. Os primeiros princípios morais são naturais.

Então por que existe o mal?

Porque a orientação natural ao bem encontra resistências:

As paixões. As paixões operam no aqui e agora. Elas puxam para o prazer imediato, para o bem aparente. A razão vê mais longe. Mas as paixões gritam mais alto. Quando a vontade segue a paixão em vez de seguir a razão, o mal acontece. Não porque a natureza seja má. Mas porque o governo falhou.

A ignorância. Se o intelecto não tem informação suficiente, pode julgar mal. E se julga mal, a vontade escolhe mal. O erro intelectual produz erro moral. É por isso que a educação importa tanto: ela amplia o campo de visão da razão.

O vício. Cada escolha errada fortalece a inclinação errada. Com o tempo, o hábito ruim se solidifica e cria uma segunda natureza que puxa contra a primeira. A pessoa sabe que deveria agir de um jeito, mas o vício a arrasta para outro.

A ferida na natureza. Para Tomás de Aquino (que aqui acrescenta à análise de Aristóteles a revelação cristã), a natureza humana foi criada ordenada ao bem. Mas o pecado original feriu essa natureza. Não a destruiu. Feriu. A razão ficou mais sujeita ao erro. A vontade ficou mais fraca. As paixões ficaram mais rebeldes. O homem ainda é orientado ao bem. Mas alcançá-lo ficou mais difícil do que seria no estado original.


Animal racional e animal político

Aristóteles não disse apenas que o homem é animal racional. Disse também que é animal político: um ser que por natureza vive em comunidade.

Isso muda a questão “bom ou mau” de forma importante. Porque a virtude não se constrói sozinho. Se constrói na família, na cidade, na comunidade. A criança aprende a ser justa convivendo com pessoas justas. O jovem aprende a ser corajoso vendo exemplos de coragem. O cidadão aprende a governar a si mesmo vivendo numa comunidade que valoriza o governo.

Rousseau erra quando diz que a sociedade corrompe. A sociedade pode corromper, sim. Mas pode formar. A sociedade boa forma homens bons. A sociedade corrompida deforma. O problema não é a sociedade em si. É a qualidade da sociedade.

Hobbes erra quando diz que a sociedade é apenas controle externo. A sociedade não domestica o homem como se fosse um animal. Ela educa. Forma hábitos. Transmite virtude. Isso é mais que controle. É formação.

A tradição clássica diz: o homem precisa da comunidade para se tornar bom. Não porque sozinho seja mau. Mas porque a virtude exige educação, exemplo e prática social. O governo de si não é um projeto individual isolado. É um projeto que se realiza em relação com os outros.


O que “governável” realmente significa

Nos artigos anteriores eu usei a palavra “governável” para sintetizar essa posição. Agora posso ser mais preciso:

Governável não significa neutro. Significa naturalmente orientado ao bem, mas necessitado de governo para alcançá-lo.

O homem tem tudo o que precisa para ser bom: razão que conhece a verdade, vontade que busca o bem, princípios morais naturais. Mas também tem tudo o que pode desviá-lo: paixões que puxam para o imediato, ignorância que confunde, vícios que se solidificam.

O governo é o que faz a diferença. Governo de si (virtude pessoal) e governo comunitário (educação, família, leis, exemplos). Os dois juntos. Nenhum sozinho basta.

AspectoRousseau (bom)Hobbes (mau)Aristóteles/Tomás (orientado ao bem, necessitado de governo)NaturezaBoa, corrompida de foraMá, controlada de foraOrientada ao bem, resistida de dentroMal vem deSociedadeNaturezaPaixões desgovernadas + ignorância + vícioBem vem deNatureza intactaControle socialVirtude (hábito + razão + vontade + comunidade)SoluçãoEliminar a corrupção socialControle e puniçãoEducação + governo de si + vida em comunidadePapel da sociedadeCorruptoraDomesticadoraFormadora


O temperamento confirma

Os quatro temperamentos são a ilustração perfeita. Cada temperamento tem inclinações naturais para o bem e para o mal. Nenhum é bom ou mau em si.

O colérico tem inclinação natural para a liderança (bem) e para a agressividade (mal). A mesma intensidade pode ser virtude ou vício. Depende do governo.

O sanguíneo tem inclinação para a alegria (bem) e para a superficialidade (mal). A mesma leveza pode ser dom ou desperdício. Depende do governo.

Cada temperamento é prova de que a natureza é orientada ao bem, mas necessitada de governo. As forças são reais. Os riscos são reais. E o que faz a diferença é o que você constrói com os dois.


O que eu quero que você leve deste artigo

Você não é naturalmente bom no sentido de Rousseau (não precisa de esforço). Nem naturalmente mau no sentido de Hobbes (sem esperança de mudança).

Sua natureza é orientada ao bem. Sua razão busca a verdade. Sua vontade busca o bem. Seus primeiros princípios morais são naturais (“faça o bem, evite o mal”). Isso é dado.

Mas alcançar o bem exige governo. Governo das paixões, formação de hábitos, educação, vida em comunidade. O bem é natural como inclinação. Mas se torna real como conquista. E a conquista tem nome: virtude.


FAQ

“O homem é bom” não é a base dos direitos humanos?

A dignidade humana não depende de o homem ser “naturalmente bom”. Depende de ele ser racional, livre e capaz de moralidade. Mesmo a pessoa que faz o mal mantém a dignidade enquanto ser racional e livre. É por isso que tem direitos. Não porque é boa. Porque é humana.

Se o homem é orientado ao bem, por que existe tanta maldade?

Porque orientação não é garantia. A razão pode errar. A vontade pode ser fraca. As paixões podem dominar. O vício pode se solidificar. E a sociedade pode deformar em vez de formar. A maldade não prova que a natureza é má. Prova que o governo é difícil e que, sem ele, as resistências vencem.

Crianças pequenas são boas ou más?

Nem uma coisa nem outra no sentido moral pleno. São imaturas. Têm a orientação natural ao bem (synderesis), mas a razão e a vontade estão em desenvolvimento. As inclinações desordenadas (mentir, tomar, agredir) são resistências naturais que a educação precisa governar. O papel dos pais é formar os hábitos bons antes que os maus se instalem.

Essa visão é pessimista?

É a mais realista e a mais esperançosa. Realista porque reconhece o mal como possibilidade real. Esperançosa porque afirma que o bem é natural e alcançável. E que o caminho (virtude + educação + comunidade) está ao alcance de qualquer pessoa disposta a percorrê-lo.

A sociedade é necessária para ser bom?

Sim. Aristóteles diz que o homem é animal político por natureza. A virtude se aprende convivendo, observando exemplos, sendo corrigido, praticando a justiça nas relações. Uma pessoa isolada pode ter boas intenções. Mas a virtude completa exige vida em comunidade: família, amizade, cidade. O governo de si se fortalece pelo governo compartilhado.


Para ir mais fundo

AUTOR
André Ramos

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit, sed do eiusmod tempor incididunt ut labore et dolore magna aliqua.

Ver todOs os artigos →

Artigos relacionados