Rousseau disse que o homem nasce bom e a sociedade o corrompe. Hobbes disse que o homem nasce mau e a sociedade o controla. A tradição clássica disse algo mais preciso: o homem é naturalmente orientado ao bem, mas essa orientação encontra resistência. Ele tem razão para conhecer a verdade, vontade para escolher o bem e paixões que podem colaborar ou atrapalhar. O que ele faz com tudo isso depende do governo, da educação e da vida em comunidade.
Essa pergunta aparece de diversas formas no dia a dia.
“As pessoas são egoístas por natureza.” “No fundo, todo mundo é bom.” “O ser humano é destrutivo, olha o que faz com o planeta.” “As crianças nascem inocentes, é o mundo que estraga.”
Cada uma dessas frases assume uma posição sobre a natureza humana. E a posição que você assume muda tudo: como educa seus filhos, como trata as pessoas, como organiza a sociedade, como entende a si mesmo.
Rousseau: o homem nasce bom
Jean-Jacques Rousseau (século XVIII) defendeu que o ser humano nasce naturalmente bom. Generoso, compassivo, pacífico. O que o corrompe é a civilização: propriedade, desigualdade, instituições.
A influência de Rousseau é gigantesca. Grande parte da educação moderna, da psicologia humanista e do pensamento progressista parte dessa premissa: se o ambiente for bom, a pessoa será boa.
Onde acerta
A influência do ambiente é real. Uma criança criada com amor, segurança e bons exemplos tem mais chances de desenvolver virtude do que uma criada com violência e abandono. O ambiente importa.
Onde erra
Se o homem fosse naturalmente bom, de onde veio o primeiro mal? Se a sociedade corrompe, quem corrompeu a sociedade? Outros homens. Que, pela tese, deveriam ser bons. A explicação é circular.
Além disso, qualquer pai sabe que a criança não precisa que ninguém a ensine a mentir, a tomar o brinquedo do outro ou a fazer birra. Essas inclinações aparecem sozinhas. O que precisa ser ensinado é o contrário: verdade, partilha, governo de si.
Hobbes: o homem nasce mau
Thomas Hobbes (século XVII) defendeu o oposto: o homem é naturalmente egoísta, violento e predatório. Sem leis e sem Estado, a vida seria “solitária, pobre, sórdida, brutal e breve”. A civilização não corrompe. Domestica.
Onde acerta
O homem é capaz de maldade real. Não é ingênuo negar isso. A história é testemunha. E a inclinação para o egoísmo é observável em toda pessoa, desde a infância.
Onde erra
Se o homem fosse naturalmente mau, de onde viria a bondade? De onde viria a compaixão, o sacrifício, o amor genuíno? Se tudo é egoísmo disfarçado, como explicar a mãe que morre pelo filho? O bombeiro que entra no prédio em chamas? O amigo que larga tudo para te ajudar?
Hobbes não consegue explicar o bem. Assim como Rousseau não consegue explicar o mal. Cada um vê metade da realidade.
O que Aristóteles e Tomás de Aquino realmente disseram
A tradição clássica não diz que o homem é “neutro” entre bem e mal, como se fosse uma tábula rasa moral esperando ser preenchida. Diz algo mais preciso:
O homem é naturalmente orientado ao bem. Mas essa orientação encontra resistência.
Vou desdobrar isso.
A natureza humana é ordenada ao bem
Aristóteles define o homem como animal racional. Isso não é um rótulo. É uma afirmação sobre a natureza: o que é mais próprio do homem é a razão. E a razão, por natureza, busca a verdade. Assim como o olho busca a luz e o ouvido busca o som, o intelecto busca o que é verdadeiro.
Do mesmo modo, a vontade busca naturalmente o bem. Ninguém quer o mal enquanto mal. Mesmo quem faz o mal o faz porque percebe algum bem naquilo (prazer, poder, alívio). A orientação para o bem é natural. O erro está na confusão entre o bem verdadeiro e o bem aparente.
Tomás de Aquino aprofunda: existe no homem o que ele chama de synderesis, o hábito natural dos primeiros princípios práticos. Todo ser humano sabe, naturalmente, que “o bem deve ser feito e o mal evitado”. Não precisa que ninguém ensine isso. É tão natural quanto saber que o todo é maior que a parte. É o ponto de partida da vida moral.
Portanto: o homem não é neutro. É naturalmente inclinado ao bem. A razão busca a verdade. A vontade busca o bem. Os primeiros princípios morais são naturais.
Então por que existe o mal?
Porque a orientação natural ao bem encontra resistências:
As paixões. As paixões operam no aqui e agora. Elas puxam para o prazer imediato, para o bem aparente. A razão vê mais longe. Mas as paixões gritam mais alto. Quando a vontade segue a paixão em vez de seguir a razão, o mal acontece. Não porque a natureza seja má. Mas porque o governo falhou.
A ignorância. Se o intelecto não tem informação suficiente, pode julgar mal. E se julga mal, a vontade escolhe mal. O erro intelectual produz erro moral. É por isso que a educação importa tanto: ela amplia o campo de visão da razão.
O vício. Cada escolha errada fortalece a inclinação errada. Com o tempo, o hábito ruim se solidifica e cria uma segunda natureza que puxa contra a primeira. A pessoa sabe que deveria agir de um jeito, mas o vício a arrasta para outro.
A ferida na natureza. Para Tomás de Aquino (que aqui acrescenta à análise de Aristóteles a revelação cristã), a natureza humana foi criada ordenada ao bem. Mas o pecado original feriu essa natureza. Não a destruiu. Feriu. A razão ficou mais sujeita ao erro. A vontade ficou mais fraca. As paixões ficaram mais rebeldes. O homem ainda é orientado ao bem. Mas alcançá-lo ficou mais difícil do que seria no estado original.
Animal racional e animal político
Aristóteles não disse apenas que o homem é animal racional. Disse também que é animal político: um ser que por natureza vive em comunidade.
Isso muda a questão “bom ou mau” de forma importante. Porque a virtude não se constrói sozinho. Se constrói na família, na cidade, na comunidade. A criança aprende a ser justa convivendo com pessoas justas. O jovem aprende a ser corajoso vendo exemplos de coragem. O cidadão aprende a governar a si mesmo vivendo numa comunidade que valoriza o governo.
Rousseau erra quando diz que a sociedade corrompe. A sociedade pode corromper, sim. Mas pode formar. A sociedade boa forma homens bons. A sociedade corrompida deforma. O problema não é a sociedade em si. É a qualidade da sociedade.
Hobbes erra quando diz que a sociedade é apenas controle externo. A sociedade não domestica o homem como se fosse um animal. Ela educa. Forma hábitos. Transmite virtude. Isso é mais que controle. É formação.
A tradição clássica diz: o homem precisa da comunidade para se tornar bom. Não porque sozinho seja mau. Mas porque a virtude exige educação, exemplo e prática social. O governo de si não é um projeto individual isolado. É um projeto que se realiza em relação com os outros.
O que “governável” realmente significa
Nos artigos anteriores eu usei a palavra “governável” para sintetizar essa posição. Agora posso ser mais preciso:
Governável não significa neutro. Significa naturalmente orientado ao bem, mas necessitado de governo para alcançá-lo.
O homem tem tudo o que precisa para ser bom: razão que conhece a verdade, vontade que busca o bem, princípios morais naturais. Mas também tem tudo o que pode desviá-lo: paixões que puxam para o imediato, ignorância que confunde, vícios que se solidificam.
O governo é o que faz a diferença. Governo de si (virtude pessoal) e governo comunitário (educação, família, leis, exemplos). Os dois juntos. Nenhum sozinho basta.
AspectoRousseau (bom)Hobbes (mau)Aristóteles/Tomás (orientado ao bem, necessitado de governo)NaturezaBoa, corrompida de foraMá, controlada de foraOrientada ao bem, resistida de dentroMal vem deSociedadeNaturezaPaixões desgovernadas + ignorância + vícioBem vem deNatureza intactaControle socialVirtude (hábito + razão + vontade + comunidade)SoluçãoEliminar a corrupção socialControle e puniçãoEducação + governo de si + vida em comunidadePapel da sociedadeCorruptoraDomesticadoraFormadora
O temperamento confirma
Os quatro temperamentos são a ilustração perfeita. Cada temperamento tem inclinações naturais para o bem e para o mal. Nenhum é bom ou mau em si.
O colérico tem inclinação natural para a liderança (bem) e para a agressividade (mal). A mesma intensidade pode ser virtude ou vício. Depende do governo.
O sanguíneo tem inclinação para a alegria (bem) e para a superficialidade (mal). A mesma leveza pode ser dom ou desperdício. Depende do governo.
Cada temperamento é prova de que a natureza é orientada ao bem, mas necessitada de governo. As forças são reais. Os riscos são reais. E o que faz a diferença é o que você constrói com os dois.
O que eu quero que você leve deste artigo
Você não é naturalmente bom no sentido de Rousseau (não precisa de esforço). Nem naturalmente mau no sentido de Hobbes (sem esperança de mudança).
Sua natureza é orientada ao bem. Sua razão busca a verdade. Sua vontade busca o bem. Seus primeiros princípios morais são naturais (“faça o bem, evite o mal”). Isso é dado.
Mas alcançar o bem exige governo. Governo das paixões, formação de hábitos, educação, vida em comunidade. O bem é natural como inclinação. Mas se torna real como conquista. E a conquista tem nome: virtude.
FAQ
“O homem é bom” não é a base dos direitos humanos?
A dignidade humana não depende de o homem ser “naturalmente bom”. Depende de ele ser racional, livre e capaz de moralidade. Mesmo a pessoa que faz o mal mantém a dignidade enquanto ser racional e livre. É por isso que tem direitos. Não porque é boa. Porque é humana.
Se o homem é orientado ao bem, por que existe tanta maldade?
Porque orientação não é garantia. A razão pode errar. A vontade pode ser fraca. As paixões podem dominar. O vício pode se solidificar. E a sociedade pode deformar em vez de formar. A maldade não prova que a natureza é má. Prova que o governo é difícil e que, sem ele, as resistências vencem.
Crianças pequenas são boas ou más?
Nem uma coisa nem outra no sentido moral pleno. São imaturas. Têm a orientação natural ao bem (synderesis), mas a razão e a vontade estão em desenvolvimento. As inclinações desordenadas (mentir, tomar, agredir) são resistências naturais que a educação precisa governar. O papel dos pais é formar os hábitos bons antes que os maus se instalem.
Essa visão é pessimista?
É a mais realista e a mais esperançosa. Realista porque reconhece o mal como possibilidade real. Esperançosa porque afirma que o bem é natural e alcançável. E que o caminho (virtude + educação + comunidade) está ao alcance de qualquer pessoa disposta a percorrê-lo.
A sociedade é necessária para ser bom?
Sim. Aristóteles diz que o homem é animal político por natureza. A virtude se aprende convivendo, observando exemplos, sendo corrigido, praticando a justiça nas relações. Uma pessoa isolada pode ter boas intenções. Mas a virtude completa exige vida em comunidade: família, amizade, cidade. O governo de si se fortalece pelo governo compartilhado.
Para ir mais fundo
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Virtudes e vícios: o manual esquecido — as ferramentas de governo que atualizam a orientação natural ao bem
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Governo de si — o que significa governar na prática
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Os 4 temperamentos — a prova de que a natureza é orientada ao bem, mas necessitada de governo