Justiça não é vingança. Não é igualdade forçada. Não é “cada um por si”. É a virtude que governa a sua relação com os outros. É a capacidade de dar a cada pessoa o que lhe corresponde: nem mais, nem menos. Pagar o que deve. Reconhecer o mérito. Cumprir a palavra. Tratar com equidade. Neste artigo eu explico o que a justiça realmente é, por que ela é a única virtude cardeal voltada para fora e como praticá-la no dia a dia.


Das quatro virtudes cardeais, a justiça é a que mais ouvimos falar e menos entendemos.

Todo mundo quer “justiça”. Mas cada um entende uma coisa diferente por isso. Para uns, justiça é punir quem errou. Para outros, é distribuir tudo igual. Para outros, é “cada um receber o que merece”. Para outros ainda, é deixar cada um em paz.

Na tradição filosófica, justiça tem uma definição precisa. E ela é mais simples do que parece:

Justiça é dar a cada um o que lhe é devido.

Não mais. Não menos. O que é devido. E “devido” não é o que eu acho que é, nem o que a pessoa gostaria de receber. É o que ela tem direito de receber por natureza, por contrato, por relação ou por mérito.


A única virtude voltada para fora

Prudência, temperança e fortaleza governam a si mesmo. A justiça governa a relação com o outro. Sem justiça, você pode ser prudente, temperante e forte, e mesmo assim destruir as pessoas ao seu redor.

O empresário que toma decisões brilhantes (prudência), vive com moderação (temperança) e enfrenta desafios com coragem (fortaleza), mas não paga seus funcionários no prazo, não é uma pessoa virtuosa. Falta-lhe a justiça.

A mãe que governa seus impulsos perfeitamente, mas trata um filho com favoritismo e outro com negligência, não é justa. O marido que é disciplinado no trabalho, mas mente para a esposa, não é justo.

A justiça completa o quadro. Sem ela, as outras virtudes podem ser usadas a serviço de si mesmo. Com ela, se ordenam ao bem comum.


Os tipos de justiça

A tradição distingue três formas:

1. Justiça comutativa: entre pessoas

É a justiça das trocas. Quando você compra algo, paga o preço justo. Quando contrata alguém, paga o salário combinado. Quando promete, cumpre. Quando deve, paga.

Exemplos: pagar o fornecedor no prazo, devolver o troco a mais que recebeu, cumprir o contrato que assinou, não cobrar mais do que o serviço vale.

2. Justiça distributiva: do todo para as partes

É a justiça de quem distribui bens ou encargos num grupo. O pai que distribui atenção entre os filhos. O chefe que distribui tarefas na equipe.

Distribuir com justiça não é dar igual para todos. É dar proporcionalmente ao que cada um precisa, merece ou pode suportar. O filho que está doente precisa de mais atenção. O funcionário mais competente pode receber tarefas mais difíceis.

3. Justiça legal: das partes para o todo

É a justiça que cada indivíduo deve à comunidade em que vive. Pagar impostos. Respeitar as leis. Contribuir para o bem comum.

TipoRelaçãoExemploComutativaPessoa ↔ pessoaPagar o que deve, cumprir contratosDistributivaGrupo → membrosDistribuir tarefas, atenção, recursos com proporçãoLegalMembro → grupoCumprir leis, contribuir para o bem comum


Justiça não é igualdade

Justiça é dar a cada um o que lhe é devido. Igualdade é dar a todos a mesma coisa. Às vezes coincidem. Muitas vezes, não.

Se dois funcionários fazem o mesmo trabalho com a mesma qualidade, justiça é pagar o mesmo. Se um trabalha o dobro e entrega resultados superiores, justiça é pagar mais a ele. Igualdade nesse caso seria injusta.

A frase que resume: justiça é tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na medida da sua desigualdade. Aristóteles disse isso há mais de 2.300 anos. Continua verdadeiro.


Os vícios contra a justiça

Injustiça por excesso: tomar o que não é seu

Roubo, fraude, exploração, abuso de poder. Mas também formas sutis: receber crédito por trabalho que outro fez, cobrar mais do que o serviço vale porque o cliente não sabe, não pagar uma dívida porque “ninguém vai cobrar”.

Injustiça por falta: não dar o que é devido

Negligência, omissão, indiferença. Não reconhecer o esforço de quem trabalhou. Não dar atenção ao filho que precisa. Não cumprir uma promessa porque “mudei de ideia”.

A injustiça por omissão é mais comum que por ação. E mais difícil de perceber.


Justiça e os temperamentos

TemperamentoRelação com a justiçaRisco específicoColéricoSenso de justiça forte, mas parcialConfunde justiça com vingançaSanguíneoGeneroso por impulso, mas esquece compromissosInjustiça por negligênciaMelancólicoSensível à injustiça, percebe e cobraPode ser injusto consigo mesmo: cobra-se demaisFleumáticoAceita injustiças para evitar confrontoInjustiça por omissão


Justiça no dia a dia

Pague no prazo. Se combinou uma data, cumpra.

Dê crédito a quem merece. Se a ideia foi do colega, diga. Roubar crédito é tão real quanto roubar dinheiro.

Cumpra a palavra. Se prometeu, faça. Se não pode, avise antes, não depois.

Não trate os filhos com favoritismo. Cada filho merece atenção proporcional às suas necessidades.

Reconheça quando está errado. Negar o erro é uma injustiça contra quem sofreu com ele.


O que eu quero que você leve deste artigo

A justiça é a virtude que governa sua relação com os outros. Sem ela, você pode governar a si mesmo perfeitamente e ainda assim deixar um rastro de dano por onde passa.

Ela é simples de entender: dê a cada um o que lhe é devido. E difícil de viver. Porque a justiça frequentemente exige que você abra mão de algo em favor do que é correto. E essa renúncia é onde a justiça encontra a fortaleza: você precisa de coragem para ser justo quando a injustiça seria mais fácil.


FAQ

Justiça e caridade são a mesma coisa?

Não. Justiça é dar o que é devido. Caridade é dar além do devido, por amor. Se eu pago meu funcionário em dia, sou justo. Se pago um bônus inesperado porque ele está passando por dificuldade, sou caridoso. A caridade vai além da justiça, mas nunca pode substituí-la.

Existe justiça perfeita?

Na prática, não. Toda decisão humana de justiça é limitada pelo conhecimento incompleto. Mas a virtude da justiça é a disposição habitual de tentar acertar. O justo não é quem nunca erra. É quem busca habitualmente dar a cada um o que lhe corresponde e corrige quando percebe que errou.

“Justiça social” é a mesma coisa que a virtude da justiça?

O termo “justiça social” é moderno e tem significados variados. A virtude da justiça inclui a dimensão social (distributiva e legal), mas não se reduz a nenhuma ideologia. O princípio é o mesmo: dar a cada um o que lhe é devido. A divergência está em definir o que é “devido” em cada caso concreto.

O colérico pode ser justo?

Pode, mas precisa separar justiça de vingança. O colérico tem um senso forte do que é certo e errado. O risco é que a ira torne a “justiça” desproporcional. O colérico justo mantém a indignação proporcionada e busca reparação, não destruição.

Por que a justiça é tão difícil?

Porque quase sempre exige renúncia. Pagar o que deve tira dinheiro do seu bolso. Reconhecer o mérito do outro tira atenção de você. Admitir o erro fere o orgulho. A justiça custa. E o que custa, exige fortaleza para praticar.


Para ir mais fundo